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A lenda venceu a justiça

Em carnaval, 09/03/2011 às 11:16 pm

Aconteceu, neste Carnaval, o que era um traço de temor generalizado, mas camuflado por todos em análises, debates, apostas. Mais do que a inventividade criativa ou a técnica apurada, em 2011, prevaleceu a força midiática. Pois somente o poder mítico da imagem de Roberto Carlos e as grandes corporações por trás de seu enredo apresentado pela Beija-Flor de Nilópolis explicam a vitória avassaladora da agremiação da Baixada, com 1,4 ponto de vantagem em relação à Unidos da Tijuca.

Antes fosse possível atribuir o massacre à força do rolo compressor dirigido pela escola nos anos recentes. Mas, diferente do que era esperado, o desfile da Beija-Flor não teve o impacto prometido, com equívocos de enredo, acabamento de alegorias, comissão de frente problemática e evolução irregular. Mesmo assim, a azul-e-branca era favorita ao título, mas sem o status de outros carnavais. No entanto, de forma diferente pensaram os jurados, com critérios discrepantes entre as notas.

Melhor apostar, então, que a vitória acachapante se deva ao peso da figura de Roberto, por mais que seja difícil afastar a ideia maquiavélica de pressão por conta das sabidas forças por trás deste Carnaval da Beija-Flor. Antes uma vitória creditada à imponência de uma lenda que ofuscou erros durante o show do que uma vitória nas costas de mecanismos escusos de manipulação da justiça dos resultados. Mas, não custa nada lembrar: como indaguei no último post, quem disse que há justiça no Carnaval?

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No Sábado das Campeãs, alguns desfiles são muito aguardados, como o do Salgueiro, que, mesmo sofrendo por conta de seu comprometido desempenho, poderá provar que tinha, de sobra, o melhor Carnaval do ano, não fosse o pecado mortal de estourar seu tempo de desfile.

E, assim como a escola tijucana, a Mangueira terá a chance de emocionar novamente a Sapucaí, com as paradonas da bateria, severamente punidas por um dos jurados. A verde-e-rosa deve vir mordida, no mínimo.

Assim como a Vila, responsável pelo desfile mais correto deste Carnaval, sendo a escola que cometeu menos erros e que merecia, claramente, melhor sorte. Poderá provar isto novamente no dia 12.

Já Imperatriz e Unidos da Tijuca trarão de volta à cena desfiles que enfrentaram julgamento final coerente com o que apresentaram.

De fora, São Clemente, Mocidade e Porto da Pedra, sendo que estas duas últimas tinham esperança de jogar a zica que as acompanha de lado, mas foram atrapalhados pelas notas da escola da Leopoldina e do morro do Salgueiro. Resultado: amargam mais um ano distantes da festa das melhor escolas. Quem sabe, em 2012?

O menos será (novamente) mais

Em carnaval, 09/03/2011 às 4:14 am

A ironia tomou conta do Carnaval 2011, pois, justamente em um ano que se esperava a disputa em mais alto nível, com onze escolas à caça de Paulo Barros e seu pavão tijucano, percalços, incidentes e acidentes transformaram a máxima do ‘menos é mais’ em lema das agremiações do Grupo Especial.

Voltamos à década de 90, quando a valorização do chamado desfile técnico encontrou seu auge, simbolizado nos desfiles da Imperatriz, sob o comando de Rosa Magalhães, dona dos títulos de 94, 95 e 99, além dos anos de 2000 e 2001. A mesma Rosa que protagoniza a volta à cena da técnica perfeita como peso principal para a disputa do título de campeã do Carnaval carioca. Mas agora a carnavalesca não comanda mais as bandas da Leopoldina. Seu bairro é o de Noel, terra da Vila, a melhor dentre as 12 escolas da elite, em 2011.

Em um ano de exceção, quando três escolas já entraram na partida sabendo de sua derrota, erros foram se acumulando na Sapucaí, como a catástrofe de evolução do Salgueiro, o confuso desenvolvimento do enredo da Tijuca e a estética abaixo das expectativas da Beija-Flor. Sendo assim, o favoritismo foi passando de mãos, como um tamborim em chamas, restando assumir a responsabilidade quem menos pecou: Vila Isabel.

Alegorias bem acabadas, um samba eficiente embalado por uma bateria cadenciada pela competência de Mestre Átila, fantasias requintadas e enredo desenvolvido com rigor didático por Rosa. Sem erros, a Vila passou (quase) infalível: a comissão de frente foi seu único equívoco. Mas, diante dos poréns das concorrentes, nada que afete o favoritismo, em tese, da azul-e-branca.

Voltou, então, à tona, a valorização da técnica dos desfiles, tão ligada ao calculismo da Imperatriz dos anos 90 e transformada pela Beija-Flor nos anos 2000, adicionando canto e energia ao apuro técnico. Mais uma vez, é Rosa Magalhães a protagonista deste episódio. Para completar o roteiro, basta que, de forma justa, como ocorreu com a escola de Ramos, o troféu de campeã caia sobre o colo da mestra, agora guardiã do pavilhão da Unidos de Vila Isabel. No entanto, a folia, apesar de mágica, se desenrola no mundo real, e, neste caso, nem tudo é sinônimo de justiça. Até mesmo o Carnaval.

Notícias de uma guerra particular

Em cinema, 28/02/2011 às 11:12 am

“Eu não sou rei”, diz Colin Firth, a certa altura de O Discurso do Rei, deparando-se com sua incapacidade de encarar o trono diante de si mesmo e da responsabilidade de comandar uma nação prestes a entrar em guerra. George VI não se sentia rei. Ele o era, mas não suportava a ideia de verbalizar seu poder, confrontando, assim, sua limitação de fala, a tal gagueira. Um mal, a princípio, banal, mas que, sob o comando de Firth e os olhos perspicazes do diretor Tom Hooper, se torna um drama existencial de primeira linha. No fundo, enquanto uma guerra de ordem mundial estava para ser travada, outra, de ordem pessoal, já estava deflagrada, em andamento, armas em punho, com seu protagonista na trincheira.

Desde o primeiro minuto de filme, acompanhamos o desenrolar do confronto de um rei com seu maior medo, escoltado por um esplêndido Geoffrey Rush, guia responsável pela estratégia que levaria o rei George VI à vitória nesta batalha duríssima. E coube a Tom Hooper documentar esta guerra, com delicadeza ímpar, aliada a um roteiro que não abre concessões à grandeza do momento histórico. A guerra em questão é a de um homem contra seu medo.

Firth, Rush e Helena Bonham Carter formam uma tríplice aliança de exuberância cênica que destaca ainda mais elementos preponderantes de O Discurso do Rei, como direção de arte, fotografia e figurino. A construção dos personagens não deixa escapar qualquer nuance, como, por exemplo, o fascínio (e, por que não dizer, inveja) de George em relação à oratória de Hitler, em seus antológicos discursos para a multidão nazista.

E, enquanto cada minuto da guerra do rei é deixado para trás, acompanhamos a chegada da Guerra, para, no fim, assistirmos a um desfecho memorável. Palavra por palavra, saboreamos a angústia do trágico momento iminente na história mundial, mas também provamos do sorriso no rosto dos protagonistas desta guerra particular. Enquanto um conflito se inicia, outro chega ao fim. Com a vitória do general Hooper e de seu bravo soldado Firth.

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